Por que ir a Marte? agosto 5, 2010
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Texto de Valter Luiz Líbero
Por que Marte chama tanto a atenção? Por que não viajar para Vênus que é o planeta que chega mis perto da Terra? Em tamanho e massa Vênus é mais parecido com a Terra do que Marte, o que resulta numa gravidade praticamente igual a nossa. Sua atmosfera, no entanto, é composta basicamente de dióxido de carbono, 96%. Ao contrário da nossa atmosfera com 78% de nitrogênio e 21% de oxigênio, na de Vênus há cerca de 3% de nitrogênio e praticamente nada de oxigênio. As nuvens mais altas são de ácido sulfúrico. Próximo à superfície do planeta a pressão atmosférica chega a 90 vezes a nossa. A esse cenário infernal soma-se o efeito estufa que eleva a temperatura média de Vênus a 400 graus.
Marte é cerca de metade do tamanho da Terra, com aproximadamente um décimo da nossa massa o que resulta numa gravidade de pouco mais de um terço da terrestre. Isso não é tão ruim, pois na Lua, que o homem já andou, a gravidade é muito menor, pouco mais de um oitavo da nossa. Sua atmosfera também é composta basicamente por dióxido de carbono, 95%, com cerca de 3% de nitrogênio e 0.15% de oxigênio. Nada agradável, mas a pressão atmosférica é bem pequena, menos que 1% da nossa. A temperatura varia de ?80 graus a noite para ?30 de dia, o que é suportável com as devidas precauções. Marte possui estações do ano, que duram o dobro das nossas. Em certas estações, tempestades de areia muito velozes podem alcançar grandes altitudes e serem vistas daqui da Terra. Provavelmente a característica mais infernal de Marte é o conteúdo baixíssimo de ozônio, cerca de 1000 vezes menos que os verificados na Terra, o que implica numa grande quantidade de radiação ultra-violeta alcançando a superfície e esterilizando a mesma.
Muito do que sabemos sobre Marte foi obtido através de observações feitas daqui mesmo da Terra. No entanto, já em 1964 a nave Mariner 4 enviava as primeiras fotos obtidas por sonda. Em 1971 a Mariner 9 fotografou toda a superfície marciana e também seus dois satélites, Fobos e Deimos. Tornou-se o primeiro satélite colocado pelo Homem em outro planeta. A primeira sonda a tentar pousar em Marte era soviética, mas se espatifou no pouso em 1971. A segunda, também em 1971 e soviética, pousou mas não funcionou. A terceira, em 1974 e também soviética, chegou a mandar sinais enquanto descia, mas falhou no pouso. A primeira sonda a chegar com sucesso foi a americana Viking 1, em 1976, sete anos após a descida do Homem na Lua. Ela funcionou por seis anos, muito além do esperado, enviando milhares de fotos. No mesmo ano chega a Viking 2 também com sucesso e que funcionaria por quatro anos. O custo dessas missões foi de três bilhões de dólares.
Vinte e um anos após as missões Vikings, em 1997, chegou a Marte a missão Mars Pathfinder, muito mais sofisticada e com custo quinze vezes menor que o das Vikings. Ela encantou o mundo, talvez não pelo que ela revelou sobre Marte, mas pela sua maneira peculiar de pousar no planeta. Uma base, denominda Pathfinder, carregando um minijipe de 10 kg, de nome Sojourner, após sete meses de viagem desceram envoltos em airbags inflados 10 segundos antes da queda. Após dezesseis saltos sobre o solo marciano o sistema pára, o air-bag é desinflado e aberto. O minijipe desceu por uma das pétalas da base e assim pode analisar o solo marciano através de seu principal instrumento, um espectrômetro de partículas alfa, de prótons e de raios-X.
Também em 1997, dois meses após o pouso do minijipe Sojourner, uma nova missão chegou com sucesso a Marte. A Mars Global Surveyor não pousou nenhum dispositivo, mas colocou um satélite artificial ao redor do planeta para fins de mapeamento topográfico e estudos meteorológicos. Junto com a Mars Odyssey, lançada em 2001 com objetivos geológicos e climáticos, hoje servem como satélite de comunicação entre a Terra e missões enviadas a Marte.
Em meio a tanto sucesso também temos fracassos, inevitáveis quando se trata de pesquisas de tamanha envergadura. As missões Mars Observer, lançada em 1992, Mars Climate Orbiter, lançada em 1998 e a Mars Polar Lander , lançada em 1999, nunca funcionaram devidamente e nem se sabe ao certo as causas. A nave japonesa Nozomi, lançada em 1998, encontra problemas em seu caminho a Marte, mas deve chegar neste ano. Esses fracassos, no entanto, acabam ajudando a aprimorar futuras missões.
Neste ano duas missões Americanas, ao estilo da Pathfinder, isto é com minijipes lançados dentro de balões inflados, desceram em Marte. A Spirit, desceu em 3 de janeiro, mas apresentou problemas que parecem ter sido parcialmente sanados. A Opportunity, que desceu 22 dias depois, parece funcionar bem. Ambas enviam fotos extraordinárias e aumentarão a região de solo já explorada, uma vez que conseguem caminhar cerca de 40 metros por dia. Elas também procuram por evidências da presença de água em solo marciano. Veja que nesta fase da exploração, encontrar água é mais valioso que encontrar qualquer outro metal precioso. Finalmente, a missão da agência espacial européia, ESA, a Mars Express, lançada em junho último, chegou a Marte e se tornou mais um satélite artificial desse planeta. Também lançou um módulo de aterragem (nos moldes do Pathfinder) mas que apresenta problemas de comunicação. Mesmo assim os resultados até agora já são muito reveladores quanto a possibilidade de existência de água em Marte.
Em vista de todas as dificuldades apresentadas pelo ambiente marciano ao ser humano, ainda teremos o problema da viagem longa demais para nós. Tipicamente as sondas enviadas viajam uma distância equivalente da Terra à Lua por dia e mesmo assim demoram meses para alcançar Marte. Sendo assim, é inestimável o trabalho que as sondas estão fazendo, que permitirá que o ser humano um dia possa ir mais bem preparado ao planeta Marte. Bem, há aqueles que acham até que nem mesmo precisaremos ir até lá, já que as informações das sondas são tão boas. Acredito, no entanto, baseado na história da civilização humana que onde for possível ir nós iremos, cedo ou tarde, perto ou longe.
*Prof. Dr. Valter Luiz Líbero, do Instituto de Física de São Carlos, responsável pelo CDCC (Centro de Divulgação da Astronomia, ligado ao Centro de Divulgação Científica e Cultura)
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